Na rádio Vagos FM com a Veterinária Dra. Ana Neves
Fonte: Vagos FM
Imagine um cão encontrado morto num terreno. Pode ter sido atropelado, pode ter morrido de uma doença natural, mas também pode ter sido envenenado. É aqui que entra a medicina veterinária forense: o papel do médico veterinário ao serviço da justiça, uma área que tem ganho maior relevância nos últimos anos, à medida que os maus-tratos aos animais passaram a ser reconhecidos como crime. Em Portugal, desde 2014, os maus-tratos a animais de companhia são considerados crime. O médico veterinário forense é, no fundo, o profissional capaz de produzir prova científica que confirme, ou não, se um animal foi vítima de maus-tratos. Trata-se de um trabalho quase de detetive. A medicina veterinária forense pode basear-se numa necropsia, isto é, numa autópsia realizada a um animal, permitindo responder a várias questões: se existem fraturas, qual o tipo de fratura, há quanto tempo ocorreram e quais as suas possíveis causas; se há hematomas recentes ou antigos; se existe conteúdo toxicológico no estômago; se há sinais de desnutrição, entre outros indicadores. Existe também a clínica forense, que consiste no exame de um animal vivo. Assim, é possível recolher informação tanto de animais mortos como de animais vivos. Muitas vezes, estes exames acontecem em casos em que os animais são retirados a tutores negligentes. Avalia-se, por exemplo, a existência de queimaduras, o estado nutricional do animal e outros sinais compatíveis com maus-tratos ou negligência. O médico veterinário forense reúne e regista informação que pode ser utilizada como prova em tribunal. Esta área pode ainda recorrer a exames complementares de diagnóstico, como TAC, radiografias, análises clínicas e exames toxicológicos. O trabalho do médico veterinário forense está muito ligado ao bem-estar animal, mas também pode ser aplicado noutras situações, como acidentes de viação que envolvam animais de companhia, crimes contra a vida selvagem e questões de saúde pública. A medicina veterinária forense é, acima de tudo, um ato de justiça e de dignidade: dignidade para o animal, cuja morte ou sofrimento merece ser investigado, e justiça para a sociedade, porque quem maltrata animais pode, em alguns casos, representar também um risco para outras pessoas.